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junho 03, 2004

Um passarinho

Estávamos na esplanada os dois. Querias um gelado mas disse-te que não podias por causa da tosse, apesar de estares melhor, que tinhas de ficar mesmo bom para a festa da escola no sábado...fizeste um beicinho e foste pedindo de mansinho, mas não podias mesmo. Quando ias começar a chorar, lá desencantei a chucha da carteira. E tu ficaste um bocado triste, muito quietinho ao meu lado, a ver os passarinhos no muro. Ficaste aflito quando um deles caiu para o lado de lá, que é alto...e eu respondi que eles voam, não faz mal! O passarinho foi mesmo simpático e voou lá de baixo e desataste a rir.

Sobrou uma migalha grande do meu bolo. Era um queque. E disse-te, vai pôr ali a migalha no muro, pode ser que venha um passarinho e coma. Tu foste a correr e poisaste a migalha no muro, com muito cuidado, aquele cuidado que só as crianças conseguem ter, a endireitar e a mudar um milímetro de sítio, até estar exactamente bem. E pensei, está tão à frente da esplanada que não vai aparecer nenhum passarinho.

Eu fumei um cigarro e conversámos sobre a bicicleta e o capacete que tem as fitas soltas, a discutir se era assim (eu endireitava-o) ou se era assim (tu entortavas). E, de repente, apareceu um passarinho e eu disse, Olha! e ficámos os dois a ver o passarinho a pular pelo muro, um pardal ainda pequeno, até à migalha. Depois comeu-a e fugiu.

E tu fizeste um daqueles sorrisos enormes de menino feliz e deste-me um abraço repentino, daqueles que são Ó main...como se a mãe tivesse feito aquilo tudo só para ti.

Meu querido filho, a minha laterna de ternura, o meu porto de paz.

Publicado por cat às junho 3, 2004 02:20 AM

Comentários

Tens que arranjar uma maneira de avisar quando vais pôr um texto que põe a gente com lagriminhas a saltar, para eu trazer os lenços... ;)

Publicado por: Encantada às junho 3, 2004 10:28 AM

São ternuras destas que nos iluminam os dias.

Publicado por: Mãe Galinha às junho 3, 2004 12:49 PM

Lá fiquei com um nó na garganta e a ver se ninguém repara que fiquei de lagrimas nos olhos. Eu não era assim, mas desde que fui mãe que as "torneiras" nunca mais foram as mesmas :P

Publicado por: P às junho 3, 2004 01:08 PM

Gosto tanto de te ler, Catarina! A maior parte das vezes entro e saio em silêncio, sem dizer nada, apenas com um sorriso e uma sensação grande de empatia. Hoje não: tinha mesmo de deixar aqui dois beijos, um para o filho, outro para a mãe.

Publicado por: 1poucomais às junho 3, 2004 09:56 PM

Obrigada e beijos para todas. Também concordo com a Patrícia, desde que nasceu o meu filho, as torneiras pingam mais. :)

Publicado por: catarina às junho 7, 2004 12:26 AM

Eis uma migalha bem merecida para tão ladino pardal :-) E já agora, também há por aqui machos muito machos...comovidos ;-)

Publicado por: Rui MCB às junho 9, 2004 01:32 AM

:) Daqui a uns tempos também vais saber como é, Rui...;)

Publicado por: catarina às junho 9, 2004 04:19 PM

Bonito. Tão bonito...

Publicado por: Maria às junho 12, 2004 07:34 PM

:º)

Publicado por: cap às junho 17, 2004 01:06 AM